Crise do pôr do sol na demência: o que é, por que acontece e como lidar?
Comportamentos como agitação, confusão e ansiedade ao fim do dia são frequentemente observados em pessoas com demência. Esse quadro tem nome: síndrome do pôr do sol, ou “sundowning”. Trata-se de um fenômeno neurológico caracterizado pelo agravamento de sintomas no final da tarde e início da noite.
Ao contrário do que muitos pensam, essa mudança de comportamento não é voluntária, nem emocional. É uma resposta do cérebro em sofrimento, resultado direto das alterações neurológicas causadas pela demência. Entender o que está por trás desse padrão ajuda a reduzir julgamentos, lidar com mais empatia e buscar estratégias que realmente funcionam.
O que causa a crise do pôr do sol?
A demência, em especial a Doença de Alzheimer, afeta áreas cerebrais responsáveis por funções como orientação espacial, controle do ciclo sono-vigília, atenção e memória. Ao longo do dia, o cérebro da pessoa com demência vai acumulando cansaço — cognitivo e sensorial —, o que reduz sua capacidade de organizar estímulos externos e internos.
No final da tarde, uma combinação de fatores age como gatilho para a crise:
- Diminuição da luz natural, que altera a percepção do tempo e do espaço;
- Fadiga mental acumulada, que reduz a tolerância a estímulos e frustrações;
- Quebra da rotina (mudança de turno de cuidadores, preparação para a noite, etc.);
- Ambientes mal iluminados, com ruídos ou excesso de estímulo visual;
- Descompasso no ciclo circadiano, frequentemente alterado em quadros de demência.
Esse conjunto de elementos pode gerar desorientação, irritabilidade, inquietação, agressividade leve ou moderada, tentativas de sair de casa ou falas desconexas. Em muitos casos, os episódios assustam familiares, que não compreendem o que está acontecendo.
Como diferenciar de outros comportamentos?
É importante saber que o sundowning:
- Tem início mais recorrente no fim da tarde, geralmente entre 17h e 20h;
- Apresenta padrão repetitivo diário;
- Não está relacionado a eventos específicos do dia, mas sim ao ritmo interno do cérebro;
- Pode durar de alguns minutos a algumas horas.
Se não for compreendido, o comportamento pode ser interpretado como birra, teimosia ou até delírio. Mas a crise do pôr do sol não é oposição consciente. É uma consequência neurológica de um cérebro vulnerável, perdendo sua capacidade de filtrar e organizar os estímulos.
O que pode ajudar a reduzir os sintomas?
Embora não exista uma “cura” para a síndrome do pôr do sol, há estratégias comprovadamente eficazes que ajudam a minimizar os episódios:
- Estabelecer uma rotina previsível (refeições, banho, atividades, horários fixos);
- Reduzir estímulos visuais e auditivos no fim da tarde (TV, ruídos, movimentação);
- Iluminar bem os ambientes internos, simulando a luz natural ao anoitecer;
- Evitar cochilos longos durante o dia, para preservar o ciclo do sono;
- Realizar atividades tranquilas no fim da tarde, como leitura em voz alta, músicas suaves ou presença familiar;
- Evitar confrontos ou correções, pois aumentam a ansiedade;
- Conversar com o médico sobre ajustes terapêuticos e medicamentos, se necessário.
A escuta atenta, o acolhimento e o conhecimento sobre o que está acontecendo são tão importantes quanto qualquer tratamento.
Converse com o médico
Toda manifestação comportamental em pessoas com demência deve ser avaliada clinicamente. O médico poderá descartar outras causas associadas, como dor, infecção urinária, alterações no sono, reações a medicamentos ou déficits sensoriais (visão e audição).
Se observar sintomas recorrentes no fim do dia, converse com o neurologista. Entender que o cérebro tem limites, e que esses limites mudam com a demência, é o primeiro passo para cuidar com mais consciência, menos culpa e mais efetividade.